Agricultura Vertical: Transformação da cultura de consumo urbana

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Desde os mais remotos tempos a agricultura faz parte da vida do homem, como forma de sustento, comércio e também colaborando para desenvolver o senso de comunidade e a divisão do trabalho. Logicamente com a evolução das sociedades, os modos de produção do campo foram se alterando. O que ocorreu especialmente com o desenvolvimento de novas técnicas, ferramentas e  tecnologias que possibilitaram novas formas de pensar na agricultura e, portanto, de desenvolvê-la.

A partir do aumento populacional e do crescimento desenfreado dos centros urbanos, a agricultura passa a ter um papel cada vez maior no que compete ao abastecimento populacional. Porém, as distâncias entre campo e cidade tornam essa tarefa difícil, uma vez que grande parte da produção pode acabar ficando danificada ou mesmo inconsumível até chegar à mesa do consumidor. Entretanto a transformação digital encontrou seu caminho para guiar o agronegócio para uma nova jornada. Confira!

Agricultura: o que é?

Agricultura é o conjunto de práticas e técnicas utilizadas na intenção de obter o melhor rendimento possível no cultivo de plantas úteis aos humanos para fins alimentícios e medicinais.  Porém, há mais facetas dentro dessa definição geral. A agricultura convencional pode se dividir em modalidades (familiar, orgânica, comercial, de subsistência, jardinagem, itinerante) e em sistemas produtivos (intensiva, extensiva e  plantation). Dentre os principais, podemos encontrar:

  • Agricultura Intensiva: é um sistema produtivo que utiliza-se de grandes áreas (latifúndios) e aplicam-se técnicas modernas como a rotação de culturas e o tratamento das sementes. Uma característica predominante é o uso de maquinário moderno e mão de obra qualificada e a produção voltada para exportação.
  • Agricultura Extensiva: utiliza-se de áreas médias e pequenas (minifúndios), a mão de obra é pouco especializada e as técnicas são rudimentares. Há pouco uso de maquinário e por não haver tantas tecnologias para cuidar da terra, o solo acaba ficando pobre em nutrientes e as terras são abandonadas. Este tipo de agricultura prioriza a produção de subsistência.
  • Plantation: é um sistema que predominou na da época do Brasil Colônia e do Brasil Império. O sistema evoluiu e atualmente se utiliza de máquinas, tecnologias e técnicas modernas. A mão de obra é pouco qualificada e esse sistema tem como característica a monocultura.
  • Agricultura Familiar: desenvolvida em pequenas propriedades rurais, a própria família trabalha e alguns empregados realizam o plantio, cuidado e colheita. Serve para o sustento da família e para abastecimento do mercado interno.
  • Agricultura Comercial: foi criada para atender as necessidades do mercado interno e externo de determinado local na produção de alimentos em larga escala. Este tipo de agricultura demanda uma grande extensão de terra  e utiliza tecnologias para atingir altos índices de eficiência e produtividade.
  • Agricultura Orgânica: foca sua atuação na preservação da saúde humana e do meio ambiente. É praticada respeitando as condições naturais de clima, solo e a biodiversidade locais, realizando o mínimo possível de mudanças. Não faz uso de agrotóxicos, a adubação é natural e as culturas são irrigadas utilizando técnicas sustentáveis e compatíveis com a realidade do local.
  • Agricultura de Subsistência: utiliza métodos tradicionais e é realizada por famílias ou pequenas comunidades rurais. É desenvolvida em pequenas propriedades e a produção têm o intuito de abastecer a família produtora e a comunidade a que ela pertence.
  • Agricultura Itinerante: o agricultor trabalha sozinho ou em pequenos conjuntos em áreas pequenas ou médias, próximas a seu local de moradia. As técnicas e tecnologias empregadas são rudimentares. É um tipo de produção que danifica muito rapidamente o solo, afetando sua produtividade. As queimadas são muito comuns para limpeza do solo, o que acaba empobrecendo-o, forçando as famílias a migrar para outra terras, onde esse mesmo ciclo se repete até o esgotamento da terra. Por isso é chamada itinerante.
  • Agricultura de Jardinagem: comum em locais com pouco espaço disponível para a agricultura e cujo o relevo é pouco propício. É utilizada a técnica de terraceamento, que consiste na construção de uma estrutura de cultivo em forma de degraus em regiões íngremes, visando aproveitar as chuvas e impedir a degradação dos solos. Também são construídos canais para a irrigação. A mão de obra é qualificada e em grandes contingentes.

O Brasil figura como o 3º maior exportador agrícola mundial, sendo este o setor responsável por impulsionar a economia do país. Em 2017, o agronegócio brasileiro produziu uma safra recorde de grãos que atingiu o valor de 237,7 milhões de toneladas. Em 2018, o setor mostrou avanços de 13% sendo o grande impulsionador do PIB nacional. O agronegócio é um dos setores que mais cresce e mais envolve tecnologias atualmente, dentre os demais setores produtivos do país. Entretanto, até que ponto pode-se sustentar o volume de alimento que tanto os países importadores quanto os demais países do mundo exigem?

Fazendas Verticais: o urbano e o rural se mesclam novamente

Principalmente com o êxodo rural, motivado pelas revoluções industriais, o trabalho no campo passou a se tornar cada vez mais escasso. A evolução dos grandes centros urbanos motivou inúmeros questionamentos acerca da produção alimentícia e das questões ambientais. Afinal, como alimentar o exponencial contingente populacional que se expande a cada momento da forma menos prejudicial possível à saúde e ao meio ambiente?

Segundo dados da NASA e FAO, até 2050, cerca de 80% da população da terra residirá em espaços urbanos, população que aumentará cerca de 3 bilhões de pessoas durante esse período. Isso significa, conforme informam as fontes, que seriam necessários 109 hectares de terra nova para produzir variedades agrícolas o suficiente para alimentar essa população.  Pensando nisso, o biólogo estadunidense Dickson Despommier, em 1999, idealizou um novo conceito de agricultura: as fazendas verticais.

Uma fazenda vertical é um conjunto espacial destinado para a produção de alimentos e remédios em camadas verticais. A ideia por trás do conceito é utilizar instalações automatizadas que, com o auxílio de tecnologias, visam  provocar o menor impacto ambiental possível e aumentar consideravelmente a produção de gêneros agrícolas. A vantagem desse tipo de atividade agrícola é que ela independe de grandes espaços horizontais e planos. Podendo e visando ser aplicada em superfícies inclinadas ou em estruturas como contêineres e arranha-céus.

As técnicas agrícolas empregadas envolvem fontes de energia sustentáveis,controle artificial da luz, uso consciente de água e outros recursos naturais em escassez para o processo de plantio e tecnologias de agricultura com controle ambiental, ou seja, fatores ambientais como temperatura e umidade podem e devem ser controlados. Algumas fazendas adotam técnicas de estufa, aproveitando a luz solar natural e, se necessário, otimizando com iluminação artificial.

A ideia de Despommier na criação deste conceito como possível solução seria a de que as fazendas verticais ajudar a reduzir a fome. Segundo o ecologista, mudar a maneira de usar a terra da forma horizontal para a vertical possibilita reduzir a  poluição e o uso de energia incorporada nos processos de agricultura.

Tecnologias da nova agricultura

Como se tratam de instalações enquadradas no que se pode considerar disruptivo, os processos que as envolvem são automatizados com a ajuda de tecnologias. Diversas startups, as chamadas Agtechs, têm criado soluções para o ramo da agricultura, visando melhorar a produtividade e promover mais eficiência nas atividades do campo.

Essas empresas trabalham desenvolvendo produtos como softwares de gestão agrícolas, para auxiliar os produtores a controlar seus recursos e sua produção. Também se valem de ferramentas como o Big Data e o Analytics para identificação de problemas nas plantações e para fazer as melhores escolhas no que compete à recursos a serem despendidos e o monitoramento do consumo de água e energia.

A Inteligência Artificial possibilita o desenvolvimento de máquinas inteligentes e o uso de drones que, por meio do machine learning, podem automatizar tarefas da produção agrícola, ajudar no monitoramento  das mesmas e auxiliar em atividades como a irrigação e o controle de energia. Dessa forma, as atividades se desenvolvem de forma mais eficiente e sustentável.

Um claro exemplo de como a tecnologia tem contribuído para a agricultura no Brasil é a startup Raks Tecnologia Agrícola, originada de um trabalho acadêmico realizado pela estudante de Ciência da Computação Fabiane Kuhn. Estudando a crise hídrica no Brasil, ela desenvolveu um sensor que mede a umidade do solo e é alimentado por placas solares.

Os dados coletados são armazenados em uma central na nuvem, que transmite as informações para o aplicativo, de forma a criar uma central de monitoramento do campo, disponível em qualquer lugar do mundo. A principal função disso é indicar o momento e a quantidade certa de irrigação que as lavouras precisam, a fim de evitar o desperdício de recursos hídricos.

Como isso reverte na sociedade? Os prós e contras da nova agricultura.

Prós

Apesar de parecer uma descaracterização do modelo agrícola, a proposta de  Despommier busca integrar os espaços urbanos e rurais em prol de uma melhor qualidade alimentícia e de saúde para a população, visto que a comida produzida apenas no campo não é suficiente em números para toda a demanda populacional.

Segundo informações divulgadas no GreenTech Summit de 2016, realizado em Amsterdam, a agricultura vertical pode produzir entre 10 a 20 vezes o tamanho da superfície que a agricultura horizontal exige. Além de que o potencial de recolhimento do cultivo da agricultura vertical é de 90%, enquanto na tradicional é de apenas 50%. Isso é uma boa ideia a partir do ponto em que as fazendas verticais podem ser construídas em qualquer lugar, uma vez que os cultivos são produzidos em massa dentro de ambientes seguros, fechados e amplamente controlados.

Também proporcionam a possibilidade de integrar essa estrutura à tecnologias renováveis como energia solar, sistemas de captação de água e turbinas eólicas. Além, é claro de gerarem novos empregos, especialmente para quem vive nas proximidades das fazendas. Elas também são capazes de se inserir em uma economia circular, em que são energeticamente autossuficientes e realizam a própria gestão residual, assim nada se desperdiça e tudo funciona em um ciclo de produção, descarte e aproveitamento.

Contras

Por outro lado, há quem afirme que esse projeto pode ser um desperdício de recursos, uma vez que deveriam produzir um lucro considerável para serem classificadas como rentáveis e portanto, justificar sua existência. Pierre Desrochers, professor da Universidade de Toronto, concluiu que em virtude da incerteza sobre a rentabilidade, torna o projeto arrojado demais, sendo preferível então a utilização de telhados de prédios existentes para o cultivo dos produtos agrícolas.

Há também a argumentação de que a ideia de sustentabilidade pode cair por terra caso o projeto seja energeticamente alimentado por combustíveis fósseis o que pode gerar gases nocivos que contribuem para o efeito estufa. Além do fato de que os projetos podem exigir uma grande quantidade de iluminação para manter o efeito de estufa que o cultivo das fazendas verticais exige. Essa iluminação controlada tende a funcionar durante a noite, algo que poderia gerar problemas com os residentes nas proximidades dos prédios.  No caso de estufas que utilizam técnicas de hidroponia, problemas envolvendo resíduos poderiam ocorrer, uma vez que estas gerariam considerável volume de água com resíduos de fertilizantes a serem descartadas.

Mas afinal, valem a pena?

As fazendas verticais ajudam a proteger as culturas contra as cada vez mais imprevisíveis e perigosas alterações climáticas. Muito embora fatores como terremotos e tornados possam danificar a estrutura, fatores como fortes geadas ou períodos de temperaturas muito altas não causam prejuízo às estruturas.

O uso de tecnologias auxilia a criar um ambiente eficiente e altamente produtivo, capaz de gerar alimentos saudáveis e frescos para os grandes centros urbanos, que podem se desenvolver e expandir de forma autônoma e sustentável, além dos benefícios socioeconômicos tal como a geração de novos empregos. Isso contribuiria para a recuperação de terras agrícolas e para a redução do desmatamento e danos à fauna e flora dos locais em que os projetos fossem aplicados. Uma vez que as tecnologias de monitoramento e controle das fazendas gerenciariam o uso de recursos naturais durante as fases das culturas até sua colheita.

Outro fator importante está relacionado à mobilidade sustentável, pois os produtos agrícolas das fazendas verticais fariam trajetos muito menores até os centros de distribuição, consumindo menos combustíveis fósseis, evitando assim a emissão de gases poluentes em grandes quantidades. Há também a questão da saúde, já que a agricultura tradicional pode ser muito perigosa para quem trabalha com isso, pois ficam diretamente expostos à doenças infecciosas e à produtos químicos altamente tóxicos, usados como pesticidas, além de estarem suscetíveis a lesões ao utilizarem pesados equipamentos agrícolas no dia a dia. Coisas que a agricultura vertical pode ajudar a evitar.

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